O cinema vive de momentos únicos. Alguns são planejados, outros acontecem como raios que cortam o céu em plena noite — e é exatamente isso que estamos presenciando agora. Daniel Day-Lewis (Sangue Negro), considerado por muitos o maior ator vivo, está de volta após oito anos de silêncio. O motivo? Um projeto íntimo, visceral e carregado de simbolismo: o filme “Anemone”, escrito e dirigido por seu próprio filho, Gabriel-Kane Day-Lewis, e que estreia em outubro no Festival de Nova York antes de chegar aos cinemas.
O anúncio não poderia ser mais impactante. Day-Lewis não é apenas um ator aposentado — é uma lenda que escolheu desaparecer no auge, após a estreia de Trama Fantasma (2017), dirigido por Paul Thomas Anderson (Magnólia). Sua decisão de nunca mais atuar deixou uma ferida no coração dos cinéfilos. Agora, esse retorno inesperado não só reacende esperanças como cria um turbilhão de expectativas. Afinal, o que faz um ator desse calibre sair da escuridão?
A trama de Anemone: irmãos, segredos e feridas abertas
Ambientado no interior da Inglaterra dos anos 1980, Anemone acompanha dois irmãos distantes que se reencontram em circunstâncias dolorosas. É uma narrativa gótica, cheia de silêncio, ressentimento e memórias mal resolvidas — o tipo de terreno perfeito para Day-Lewis explorar com sua intensidade única.
O enredo ecoa temas universais:
- Família como arena de batalha — onde amor e ódio convivem.
- O peso do passado — traumas que nunca cicatrizam.
- O confronto com a própria identidade — dois homens tentando encontrar sentido em uma vida marcada por cicatrizes emocionais.
Se a premissa parece intimista, é justamente aí que reside sua força. O gótico não precisa de monstros para ser aterrorizante: basta uma casa isolada, duas almas quebradas e segredos que nunca deveriam ver a luz do dia.
O peso de um retorno
O último papel de Daniel Day-Lewis, em Trama Fantasma (2017), foi um adeus digno de sua carreira impecável, que inclui três Oscars de Melhor Ator — por Meu Pé Esquerdo (1989), Sangue Negro (2007) e Lincoln (2012). Sua dedicação ao método, mergulhando de corpo e alma em cada personagem, tornou-o quase um mito.
Agora, voltar sob a direção de seu filho não é apenas um gesto artístico: é um rito de passagem. É como se Day-Lewis estivesse dizendo ao mundo que ainda há batalhas a serem travadas, mas agora no terreno mais íntimo possível — o da própria família. Para um ator que sempre tratou a arte como guerra, aceitar ser dirigido pelo filho é entregar-se à vulnerabilidade.
Gabriel-Kane Day-Lewis: o herdeiro assume o manto
Escrever e dirigir o próprio pai é um gesto audacioso. Gabriel-Kane Day-Lewis, mais conhecido inicialmente por sua carreira musical, estreia como cineasta com um projeto que já nasce monumental pelo peso do sobrenome que carrega. É inevitável a comparação: ele estará diante do ator considerado “o maior de todos”.
Mas essa é justamente a narrativa que torna Anemone tão fascinante: não é apenas um filme, é um duelo simbólico entre gerações. O filho escreve e dirige, o pai interpreta e se entrega. O cinema se torna arena de transmissão de legado.
Elenco de apoio: titãs em campo
Além da volta de Day-Lewis, Anemone traz nomes de peso que fortalecem ainda mais o hype:
- Sean Bean (O Senhor dos Anéis), eterno Boromir, conhecido por morrer em quase todos os papéis, agora assume um personagem denso e trágico, perfeito para seu estilo visceral.
- Samantha Morton (Minority Report), uma das atrizes britânicas mais respeitadas, famosa pela entrega emocional crua, dá corpo a uma personagem que promete ampliar o clima de tensão psicológica.
Esse trio cria uma combinação explosiva: um ator lendário, um ícone da cultura pop britânica e uma intérprete de respeito absoluto.
Prós e contras de uma aposta tão íntima
Não existe retorno sem riscos. Com Anemone, os prós e contras são claros:
- Prós:
- O retorno de Daniel Day-Lewis, um evento por si só.
- A força emocional de uma história escrita e dirigida por seu filho.
- Elenco de apoio que garante qualidade e profundidade.
- Contras:
- O peso da expectativa: qualquer deslize pode ser interpretado como mancha em uma carreira perfeita.
- O risco do público esperar espetáculo quando a proposta é intimista e lenta.
Mas é justamente no confronto entre essas tensões que o gótico floresce. O desconforto é parte da experiência.
O gótico familiar: terror sem monstros
O que torna Anemone fascinante é sua abordagem gótica: o horror não vem de fantasmas ou criaturas sobrenaturais, mas da família.
O lar, que deveria ser refúgio, se transforma em labirinto emocional. O reencontro dos irmãos não é celebração, mas campo de guerra. As lembranças do passado assombram mais do que qualquer espectro. É um terror psicológico que dialoga com obras como O Iluminado (1980), de Stanley Kubrick (Laranja Mecânica), e mais recentemente com Hereditário (2018), de Ari Aster (Midsommar).
Scorsese pode não estar envolvido neste filme, mas o paralelo é inevitável: Anemone segue a linhagem do cinema adulto que desafia, não que acaricia.
Impacto em premiações: o retorno que pode virar evento
O retorno de Daniel Day-Lewis não é apenas notícia de entretenimento — é o tipo de acontecimento que mexe diretamente com o calendário de prêmios. A estreia de Anemone em outubro no Festival de Nova York já posiciona o filme como candidato a figurar em conversas de Oscar, BAFTA e Globos de Ouro.
O histórico não deixa dúvidas: sempre que Day-Lewis entrou em cena, os prêmios vieram. Seu comprometimento absoluto com o método transformou cada papel em evento. Agora, sob a direção do filho Gabriel-Kane Day-Lewis, a narrativa ganha ainda mais apelo para júris internacionais: trata-se de um retorno cercado de intimidade e legado.
Mesmo que Anemone não seja blockbuster, sua presença em festivais e a força de elenco podem garantir o tipo de prestígio que sustenta carreiras e grava o nome de um filme na história. Para o público brasileiro, isso significa acompanhar não apenas uma estreia, mas um evento cultural global, debatido em todas as arenas cinéfilas.
Conclusão: um retorno que é mais que cinema
Anemone não é só o próximo filme de Daniel Day-Lewis. É um rito, é uma passagem, uma entrega. O filho dirigindo o pai, o passado encontrando o futuro. É a prova de que o cinema ainda pode ser íntimo e épico ao mesmo tempo.
Quando Day-Lewis entrar em cena, não veremos apenas um personagem. Mas sim um guerreiro que voltou da aposentadoria para lutar uma última batalha — não contra inimigos externos, mas contra os fantasmas do tempo, da família e da memória.
E a pergunta que fica é: estamos prontos para testemunhar a volta do maior ator vivo enquanto nos deparamos com um duelo íntimo com seu próprio legado?
Na Arena Geek, a resposta é simples: essa é a batalha que não podemos perder.







